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domingo, 14 de agosto de 2016

PASSO















Sou esquinas
cruzamentos em ladeiras
sou paralelepípedos
cimento e muros
poeira e musgos
e sou também paisagem

sigo admirando,
plantas que vou vendo
vendo tanto que sendo
indo que apenas ando

Desprevenido vou que tento
aos poucos percebo sutil
aquilo que eu mesmo invento
e vendo, querendo, sabendo
termino me desconhecendo

porque sempre que escrevo
e mesmo quando apenas descrevo
falo daquilo que sou
porque sou incapaz de escapar disso

enquanto sendo, sei-me que vou
vi-vendo
muito além do óbvio porque estou vivo
e era isso
nisso que ando

precisando contar 
disso 
que não sei falar

ao subir ladeiras
desço profundo no passado
meu e da cidade

nosso

e a plenitude caminha
sabiamente insatisfeita
como uma cadela ainda jovem
que se realiza, ainda que em pânico
no escapar desprevenido
de um coleira que se solta
um susto de liberdade
um sabor de coragem e medo
que de repente volta e se revolta
Sou este cão
neste exato momento
entre a coleira
e o deja'vú
de uma tal liberdade

sou esta exitação
num olhar que se desprende
solto
entre o caminho e a paisagem

Sou doméstico e sou selvagem

sou amor somado à libertinagem
Dor que se estica em sabedoria
Susto que se converte em alegria
Saudade que desembarca de longa viagem

Sou sonho em plena realidade
e pleno
mesmo em um mundo de crueldade
sou amor consciente
e paixão à beira da loucura
sou o sabor do onipresente
e o som vivo de uma textura

Esquinas
cruzamentos
ladeiras
paralelepípedos
monumentos
muros
tijolos
furos
entulhos
becos
embrulhos
escadas
praças
curvas
estradas
dobrando...

Ando

porque sempre que escrevo

mesmo se apenas descrevo
comunico naquilo que sou
vou incapaz de escapar 

do que estando...

a trajetória da vida
é portanto como uma onda
que é uma energia infinita
e ao mesmo tempo redonda


ADVINHO
















Quase nada não é ilusão 

e em tudo que há verdade
Entrego-me em tamanha atenção 

O que desconheço, é também realidade? 

Do que acredito que sei 
o não saber é minha identidade 
testemunha dos meus pensamentos 
observador de sentimentos 
Estudante do mundo 
um universo dentro de mim... 

Mergulho sorrisos em paisagens 
beijos em geologia e admiração humanas 
e assim, advinho a felicidade 
quando lambe por mim o amor em chamas


quarta-feira, 20 de julho de 2016

A TRAVESSIA E O TRAVESSO



























Tenho andado assim, meio sonso... É isso aí, um sonso mesmo. Mas é dum tipo de cinismo invisível aos outros, só tem efeito diante do meu próprio ser. É tipo uma hipocrisia, só que apenas eu me faço ser enganado. Disfarces que me são privados e auto-inventados, absolutamente particulares. São apenas do meu próprio desconhecimento... Não chegam a ser secretos mas enganam-me com astúcia... Bem, não sei se é exatamente isso, acho que não, não sei, pera aí... Calma! Ai, sei lá, acho que não é bem isso que quero dizer, mas tô tentando... Só um instante, deixa eu ver... Ah... Melhor tentar por um outro labirinto de palavras...

A questão é que eu tenho precisado inventar pra mim mesmo esse montão de mentirinhas completamente bestas, bem idiotas mesmo, besteira total. São do tipo de mentiras bem descaradas mas totalmente despretensiosas. E olha que eu minto bem, muito bem por sinal, modéstia à parte! Mas ao mesmo tempo que são mentiras inofensivas, e um tanto infantis, eu sei, são também muito poderosas. Porque é desse meu joguinho de fingimentos bobos que faço nascerem as sensações mais reais e agradáveis do meu dia-a-dia ultimamente... Bem, não é lá essas coisas, nada extravagante não, mas ao menos são vivências digamos que menos desagradáveis, bem mais leves não fosse esse teatrinho secreto me camuflando de mim mesmo. Ah sei lá, .. Já não sei se estou conseguindo me fazer entender não... Será? Ah... Nossa! É tão difícil simplificar, e tão fácil complicar! Ih, Opa! Acho que é bem por aí isso que eu tô tentando explicar... Vamos lá...

É tipo assim: eu vou seguindo nessa estrada, um caminho todo cercado de ausências desérticas, e tudo ao meu redor de repente começa a pegar fogo. Um fogaréu imenso mesmo, lambendo tudo em volta numa violência brutal e totalmente descabida, sem explicação, sem controle e nem razão, assim, lamentavelmente desnecessária... É que no fundo eu sei que toda essa guerrilha de labaredas ao meu redor não passa de uma mera fogueira de vaidades sem pudor. Então eu sei que mesmo passando por entre esse combustível corredor ardente eu não tenho como me queimar, jamais! Porque eu não sou lá muito inclinado à vaidades... Meus orgulhos são bem tímidos e humildes, tão insignificantes que nem carece que sejam citados... Mas assim, só pra me resguardar mesmo, é que, secretamente, tenho criado esse meu jogo sonso, e assim me disfarço todo e me finjo, faço que sou todo feito de água...

Isso mesmo! É... Água! Porque então ao invés de seguir nessa avenida calorenta e engarrafada, eu me aproveito de todo esse asfalto fervoroso e vou fluindo... Me encolho e escolho ser inteiramente um rio, isso! Um rio indo e rindo. E aí no meio dessas faíscas barulhentas, ao invés de ir me apavorando, eu vou só me evaporando... mas discretamente. Ninguém nem percebe que eu vou passando, molécula por molécula, todas bem minúsculas e molecas, e daí depois vou me reagrupando bem lá em cima, já me condensando todo em nuvem de um modo que ninguém nem se dá conta dessa aglutinação que minha imaginação me apronta... É isso que me ajuda a driblar esses vulcões que toda hora vivem entrando em ebulição à minha volta... É isso que me faz poder olhar de longe de toda essa revolta, bem lá de cima, como no olhar duma gaivota. E tudo isso só pra encontrar um cantinho que seja todo meu e assim como eu: desconhecido, inexplorado. Bem lá no meio duma floresta qualquer, mas dessas bem preenchidas de verdes, raízes e seus silêncios musicados. Lá eu passo todo pássaro, passeando até me desabar em cachoeira pra ir dançando por entre as pedras todas cheias de musgos, e com aqueles cheirinhos minerais tão familiares e aconchegantes... Assim, faço das mentiras minhas verdades mais calmantes.

Mas é claro que em algum momento há de recomeçar uma série de trovoadas... Tem sempre uma frente fria por vir, rondando e ameaçando chover... A meteorologia alerta que há possibilidade de relâmpagos em toda parte. Mas sei que não poderão me acertar, pois me fantasio de arte... Eu ignoro notícias e previsões, continuo com essa minha brincadeira dissimulada, nadando nas ilusões que eu mesmo crio. Sigo inventando os meus silêncios, mesmo sabendo que não é possível essa coisa de ficar inventando ausências... E mesmo assim eu insisto nesses meus fingimentos, ainda que meio cretinos, eu sei, eu sei, eu sei... Confesso! Desnecessários talvez, mas pra mim são inevitáveis, eles que são o meu recesso, meu pacífico protesto...

É que se de alguma forma eu acabo sendo empurrado pra essas realidades à que despertenço, já que apesar de me saber tijolo eu não nasci pra ser muro, muito menos pra me cercar de cimento e viver esmagado de fronteiras, minha natureza é a de fazer pontes, é isso! Eu tô muito mais pra desconstruir distâncias que pra ficar preenchendo vazios e suas inúteis futilidades...

É por isso que consigo me manter ventando maresia mesmo enquanto sou arrastado por tempestades. Tudo por causa dessa coisa mansa de brincar comigo mesmo, fingido que só eu que sei; vou todo disfarçado de brisa bem lá no meio dos furacões todos, é minha escolha, minha distração: a minha loucura é a ao mesmo tempo minha salvação, fazer o quê, ué? Pra mim detergente é muito mais legal quando bolinhas de sabão...

Quando eu sou engolido por um tornado e começo a girar descontrolado, prefiro mesmo gargalhar, me mijar de rir... E aproveitar feito um parque de diversão, sei lá! Me basta fingir que há uma prancha em meus pés pra eu ir driblando todo e qualquer alheio surto, e nesse túnel, apenas surfo... Pois surfista, sinto-me muito mais eu, precisamente como haveria sonhado...

Sim, sim, eu sei... De um jeito ou de outro, é tudo mesmo inventado...




quinta-feira, 14 de julho de 2016

DIÁRIO PROPOR























E todo dia é grade e é muro
e é claro e é escuro e apaga e
não entende e vende e mudo

Todo dia é junto e sozinho e é fundo
é imundo é mundo é limpo no escuro
e é tudo e é claro e também é escudo

Todo dia é o dia que é na noite o que  é pronto
e é pranto e encanto é espanto que transbordou

E todo instante é distante no perto que dissipou
na parte que é arte e é cadente que já se apagou

Todo fragmento é dentro e é tormento rompante
é memória e é medo que a coragem descongelou

Ou então é sol e ardência é coceira que arranhou
coração é farol e calor cuja dor em ardor é amor

que derreteu as pedras em molecas moléculas
nas danças químicas dos perdões à todo vapor

Todo dia é zerar o alarme e desligar do alarde
desviar do drama, esquivar da trama covarde
e pra driblar das ilusões dos vulcões do pavor...

Encantar-se com a tarde, céu, pássaros, milagres
escolher espetáculos pro olhar decidir;
e dar-lhes cor . . .

CÁRCERE ETIQUETADO






Só uma porta emperrada
ou uma mola enferrujada...

Sou rachaduras numa calçada
da história jamais mencionada...

Tantas metáforas tão insignificantes
brilham mais que o olhar da madame
na cegueira da sede por diamantes

Sonhando com as cachoeiras purificantes
vou sufocando-me numa areia movediça
já há tempos nessa luta isenta de cobiça

De meu peito soam sussurros agonizantes
meus gritos por socorro sempre abafados
sentimentos surdos e mudos e enjaulados



Encurralado nesse enorme poço de lama,
meu sentir derrete, se espalha e derrama
só a boca e os olhos ainda resistem, escotilha
todo meu restante é engolido nessa armadilha

Tento não tentar mais me mover,
como última forma de sobreviver
à tal agonia, sufoco não metafórico não brilha
é arma sensível, que sonsa, se auto-engatilha

Tento ficar bem quietinho, mesmo engasgado
nem posso tossir pois tudo me dói, dilacerado
tudo que sou se condensa, esmagado
um abacaxi sem coroa, já descascado

Insignificante, sou só um mero inseto
preso à sola de um sapato, meu teto
desgarrado carrapato em um deserto
o horizonte é miragem, puro e incerto

Tudo me é drama e sem trama 
lençóis me algemando à cama

Entre o oceano e o céu sou apertado
nem lembro mais quando fui pescado
sou esse peixe se debatendo
e me rendo, não sei mais se ainda nado
agora apenas me compreendo
prateleira de um supermercado
industrial: sou, só, mais um
enfileirado...
tal mero atum
enlatado...






terça-feira, 3 de maio de 2016

O RISCO DE UMA ESTRELA CADENTE - [parte 1]





Sei que tinha meros três anos de idade:
um piscar de olhos, e uma nova cidade
um outro idioma, uma estranha família
estranhos aromas, casa, cama e mobília

Fui mergulhando nessa outra sociedade;
inescapável, reinventei minha identidade
enquanto girava num furacão emocional
todo cheio de infinitos e eteceteras e tal...

Escorreguei me derretendo em avalanches
labirintos sem paredes, tantos desmanches.
E fui engolido por um gigantesco tornado
e encolhido entre meus silêncios lagrimais
não compreendia aquele peito consternado
em minhas tempestuosas crises existenciais...

O novo não assusta quando tudo é pura novidade
mas o estorvo foi crescer no convívio da saudade
Renasci, tendo que reaprender tudo: ouvir, falar
dormir, brincar, correr, sonhar; o meu novo amar
Remodelei meu travesseiro até sentir me aninhar
Demorei até me adaptar, mas aceitei um novo lar

Fazer amigos novos era sempre a maior facilidade
vizinhos, escola, rua: me encontrei nessa felicidade
mesmo que acompanhado de uma tal clandestinidade
secretamente eu me fortalecia nos tijolos da amizade

Mesmo tentando evitar, era visto como o diferente
e onde quer que eu fosse, sentia tudo intensamente
e no tentar parecer normal, me revelava o irreverente
nada conseguia esconder: meu coração é transparente

Me acostumei ao destaque, ao ataque, ao atabaque
e as perdas pra mim não me causavam tanto baque
eu desconhecia o luto, o soluço escondia o sotaque
subia em árvores, fazia pipa e no surf eu era craque

Algo veio junto em minha pele, tipo que antiaderente
passeava por todos grupos, mas me sentia incoerente
E como um risco no céu, brilho duma estrela cadente
só encontrei paz no papel, e me reconheci adolescente ...




























sábado, 16 de abril de 2016

TRAVESSIA






































De repente sinto...
todas ondas sonoras
transmutando em meu consciente
como ondas de choque e
a gravidade me expremendo, feito 4 paredes.
Eleva a dor, claustrofóbico,
piso no instável e no inerte
É levada a cor, estroboscópio,
inevitável que ele me acerte...
Eu só preciso atravessar essa Lapa...

Os caros me esmagam, tratores...
caminhões, motos, táxis, moto-táxis
me embrenhando na selva metálica
meu sentir reduzindo à concreto
no asfalto meus sapatos trincam
prestes a estilhaçarem-se feito vidraças...
E eu só preciso atravessar essa Lapa...

Meu coração um bombardeio: Tum, Tum...
Tum... Tum tum, tum tum tum, tumtumtumtum....
perco então qualquer noção de velocidade
tudo pára, depressa ou devagar, tudo cidade
eu correndo e prédios ao redor desabando,  me dá a mão!
meus pés agora enraizados em cimento, cinzento o chão...
Só preciso aguentar até o sinal fechar, ou abrir... Abre! Fecha!
Eu só preciso atravessar essa Lapa...

Encolhido feito um feijão, sou esse umbigo de semente
mal posso me mover, e me cubro todo numa tal capa
um manto-casulo de ilusão me inventando uma invisibilidade
mas os olhos dóem, o ar todo me fere, me dá um tapa
pernas me levam automáticas, dirigem-me à responsabilidade
sonhos se corróem, alma inteira pede, tudo me escapa
Mas só o que preciso agora é atravessar essa Lapa...